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segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Com o PT, morreu a ultima quimera brasileira
Do Jornalista Rudolfo Lago (Congresso Em Foco)
No caso do personagem do poema de Augusto dos Anjos, “ninguém assistiu ao formidável enterro da sua última quimera”. No caso do PT, o “enterro da última quimera” foi transmitido ao vivo e em cores pela TV Senado, diretamente da sessão do Conselho de Ética do Senado, no dia 19 de agosto de 2009. Agosto, sempre agosto, fatídico mês a marcar as grandes tragédias nacionais. Eis que novamente agosto agora sepulta de vez o partido político de história mais bonita já contada neste país.


Dirão aqueles que Nelson Rodrigues costumava chamar de “idiotas da objetividade”: “Morreu como, rapaz? O PT está aí, forte, à frente do governo mais popular da história”. Vivo e forte como mera sigla formada por duas letrinhas agora sem maiores significados, está mesmo, é verdade. O que morreu, no dia 19 de agosto de 2009, foi o sonho, a quimera. Nesse dia, três fatos marcaram o abandono completo dos ideais que fundaram o Partido dos Trabalhadores, e a sensação de que, com ele, aconteceu o mesmo processo de deformação que marcou todos os demais partidos políticos brasileiros que antes chegaram ao poder: o PMDB, símbolo máximo da resistência democrática à ditadura militar, virado na atual geléia de poucos princípios e representante apenas de líderes e interesses regionais; o PSDB, criado como reação à transformação peemedebista, refúgio dos bons, transformado naquilo que Sérgio Motta chamou um dia de “partido ônibus”, onde sempre cabe mais um, não importa o que realmente pense ou defenda.


Criado nos anos 80, naquele momento de renovação democrática, o PT foi um sopro de modernidade nas discussões empoeiradas da velha esquerda. Foi o PT que nos apresentou às bandeiras ecológicas que começavam a surgir na Europa. Foi no PT que se ouviu falar pela primeira vez de “desenvolvimento ecologicamente sustentável”, de respeito “aos povos da floresta”, da possibilidade de sustentação de uma economia que não fosse meramente devastadora da natureza, mas que buscasse aplicar uma forma mais inteligente de relação com ela.


Primeiro ato do “enterro da última quimera”: Marina Silva anuncia a sua desfiliação do PT. Não foi Marina quem saiu do PT, foi o PT que saiu de Marina. No poder, o presidente Luiz Inácio da Silva e a sua escolhida para sucedê-lo, Dilma Roussef, abandonaram todo o ideário inaugurado pelo PT com Marina e Chico Mendes e optaram por um caminho desenvolvimentista brutal como a da ditadura militar: grandes hidrelétricas alterando o curso dos rios, grandes estradas invadindo florestas. Que interessa a desova dos peixes? Que interessa animais desabrigados e árvores queimadas? O país tem que crescer. Se isso provocar o colapso do país e do planeta no futuro, eu não vou estar aqui pra ver, que se dane. Eu sou aqui e agora. Lula, primeiro e único. Simples assim. Por 30 anos no PT, Marina tinha certeza de que poderia optar, sem prejuízo econômico para o país, por um outro caminho. Quando teria a oportunidade de provar isso, foi alijada, demitida do Ministério. Sai do PT para manter seu sonho, a sua quimera, “mantenedora de utopia”, como se classificou.


Mais feliz talvez tenha sido mesmo o personagem de Augusto dos Anjos: “Ninguém assistiu ao formidável enterro da sua última quimera”.

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